08 janeiro, 2007

Bem na foto

Era um dia quente de domingo, daqueles sem nenhuma brisa para aplacar o calor. O sol, a pino, castigava inclemente até os mais habituados com tanta luz. A grama luminescia em amarelo e emanava um odor sulfuroso, devido a adubação recente.

O jovem casal caminhava a passos lassos, ele com aparente tédio, ela indiferente. Talvez pelo calor, sentaram-se na grama. Trocaram alguns olhares e poucas palavras. Ela parecia incomodada pelos mosquitos, pequenos dragões vorazes por sangue, ou talvez pela grama que pinicava. Tédio e descorforto!

O rapaz sacou de sua mochila uma pequena câmera, aproximou-se da namorada e olharam juntos para a objetiva com sorrisos como os de propaganda de creme dental. Não estava mais calor, a grama não pinicava, nem os mosquitos zumbiam mais! A indiferença nos olhos dela foi substituída por uma felicidade quase extasiante. Ele, tornara-se o mais apaixonado dos amantes. Click, click. Eternizaram um momento que nunca viveram.

Para os saudosistas, um prato cheio. - Como eu era feliz naquele tempo. Olhe a foto!

Mas não se engane, nem só os saudosistas podem tirar proveito, os mais recalcadinhos também podem servir-se. Está lá a prova de seu sucesso, tão importante num mundo extremamente competitivo, com relacionamentos cada vez mais superficiais, onde ser feliz virou uma obrigação. Só os francos e incompetentes são infelizes. Sorriso?? Até em foto de velório. Vai que alguém te flagre chorando!?

15 novembro, 2006

La Fontaine?!

Ninguém duvida que o serviço público tenha uma cultura própria, cheia de ritos, protocolos e manias que de tão impregnados passaram a fazer parte do inconsciente coletivo do funcionalismo. Estão lá, em cada uma das categorias, para os mais diversos efeitos que se possa imaginar. Começando pela fixação pelos incontáveis memorandos, a guia rosa, a amarela, e por favor, não esqueça o carimbo na quarta via. Aquela que servia para que mesmo? Opa, não me lembro, mas também não é nosso tema.


Nesta seara, sempre me despertou curiosidade, meio basbaque, confesso, a recorrente figura da formiguinha apressada. Uma leitura excêntrica, de uma fábula que provavelmente foi encomendada por alguma associação patronal ao La Fontaine e que foi adotada como estandarte pela ala “da boa vontade” do serviço público. Basta uma tarefa de difícil execução devido a baixa adesão ou a escassez de vontade dos gestores que lá está ela. - É trabalho de formiguinha mesmo, diz. Mas o que isso quer dizer afinal??

Bem, 1- o servidor acredita estar extremamente empenhado em uma tarefa hercúlea e solitária, já que não pode contar com a cigarra ou com a colega mosca morta; 2-ele acredita que a persistência renderá algum resultado; 3- que será, de alguma forma, gratificado por seu empenho.


Até entendo que o servidor não conheça intimamente o funcionamento de um formigueiro, que não saiba que todas as formigas trabalham, ou que possuem funções bem definidas, porque há clareza na determinação dos objetivos. Para elas, aquele trabalho todo não é hercúleo. O que estarrece é o fato de não perceber que quando seu chefe evoca o inseto, está dizendo: Sinto muito, mas algo tem que ser feito nesta área, preciso de estatísticas que comprovem nosso trabalho, que justifiquem nossa existência. Não possuímos o devido apoio institucional, mesmo que a lei o determine e estou extremamente apegado ao cargo para correr o risco de me indispor com a direção superior, portanto, faça o quanto e o que você conseguir fazer com o que tem... Opa!! Caí na real. Talvez a form, digo, sevidor perceba! Acho que prefiro os mamíferos.